O SURGIMENTO DO CRUZEIRO REAL – A verdadeira história do padrão e o motivo pelo qual “a rendeira” (CR$10.000) não foi impressa.



Em junho de 1993, a inflação chagava aos 30% ao mês, e mesmo com a discreta recuperação das importações e a volta de algumas importantes atividades industriais, era preciso um novo modelo e um novo projeto fazendário para recuperar de vez o país. O então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, que assumira o cargo em maio de 1993 ficou encarregado de colocar o novo projeto em ação. O projeto previa o combate à inflação, reforma do Estado, privatizações das estatais e a redução dos gastos públicos.

Esse conjunto de medidas ficou conhecido como “Plano de Ação Imediata” (PAI), anunciado em junho de 1993, mas era voltado principalmente para conter os gastos públicos. O corte orçamentário previsto pelo PAI acabou por exercer um forte impacto negativo sobre as verbas destinadas às áreas de saúde e educação. Em julho do mesmo ano, diante de uma inflação acumulada de mais de 500% para o ano vigente, foi decretada a adoção de um novo padrão monetário denominado Cruzeiro Real, o padrão chegava com o corte de três zeros do Cruzeiro.

Ainda em julho de 1993, houve uma redução significativa das alíquotas de importação e, alguns meses depois, foi anunciada a liberalização do câmbio, este, passava a flutuar livre da interferência do Banco Central. A persistência do processo inflacionário provocou a aceleração do processo de desestatização das empresas, com vista à privatização. Nesse momento, já circulavam rumores de que um novo conjunto de medidas seria adotado, incluindo uma nova troca de moeda, isso, determinaria a curta duração do Cruzeiro Real.

EMISSÕES E ICONOGRAFIA
O símbolo CR$ (Cruzeiro Real) teve as duas letras grafadas em maiúsculo para diferenciá-lo do antigo padrão Cr$ (Cruzeiro) da unidade anterior. Houve um corte de três zeros na nova moeda, e sua centésima parte passou a se chamar centavo. As cédulas de 50 mil, 100 mil e 500 mil cruzeiros receberam um carimbo, passando a representar, respectivamente, 50, 100, e 500 cruzeiros reais. Devido à sua rápida desvalorização, não chegaram a receber uma impressão definitiva.

Ainda em 1993, foram emitidas as cédulas de 1.000 e 5.000 cruzeiros reais. A primeira recebeu a efigie do educador Anísio Teixeira, acompanhado de cenas referentes à educação; e a segunda a figura do gaúcho, evocando outros elementos e cenas típicas da região dos Pampas. A introdução desta linha temática nas cédulas, que consistiu na representação de tipos humanos e aspectos regionais brasileiros, teve sequência na emissão, em 1994, da cédula de 50.000 cruzeiros reais, retratando a figura da “desejada” baiana, além de uma série de referências ao sincretismo religioso brasileiro.  

A emissão da cédula no valor de 10.000 cruzeiros reais, que traria a figura da rendeira, se tornou desnecessária em face do aumento progressivo da inflação e a instituição do novo padrão monetário que viria, o Real. Não existem emissões oficiais desta cédula.
Em relação às moedas, a temática da fauna brasileira retornou às moedas de 5, 10, 50 e 100 cruzeiros reais, por meio das figuras de arara, tamanduá, onça-pintada e lobo-guará, respectivamente.

A CRONOLOGIA DO PADRÃO
Para que você possa acompanhar com o máximo de fidelidade a cronologia do padrão Cruzeiro Real, os votos, comunicados e circulares foram separados em ordem cronológica e na integra de suas informações textuais. Você também poderá observar os motivos pelos quais a cédula da rendeira CR$ 10.000 não foi posta em circulação e teve seu projeto cancelado.

26-06-1993 - O Conselho Monetário Nacional aprova as características básicas das cédulas de 1.000 (tema focalizando vida e obra do educador Anísio Teixeira) e de 5.000 (tema dedicado à figura do tipo regional “gaúcho”) de cruzeiros, cujo lançamento ocorreu somente quando o padrão Cruzeiro Real foi instituído, com o valor de 1.000 e 5.000 cruzeiros reais. (Voto CMN nº 079/93 – Sessão 540).

01-08-1993 – Tem início a vigência do Cruzeiro Real como unidade do sistema monetário brasileiro, com a equivalência de 1.000 cruzeiros para 1 cruzeiro real. É previsto o lançamento em circulação, a partir de 02-08-1993, de cédulas de 50, 100 e 500 mil cruzeiros, carimbadas com valores correspondentes em cruzeiros reais. Até 31-12-1993, serão colocadas em circulação cédulas de 1.000 e 5.000 cruzeiros reais, que terão as mesmas características gerais aprovadas, em sessão de 29-06-1993, para as cédulas de 1.000.000 e 5.000.000 de cruzeiros. Obs: O lançamento de cédulas de 50, 100 e 500 cruzeiros reais, não-carimbadas, previsto na resolução nº 2.010, art, 14, não se efetivou. (MP nº 336, de 28-07-1993; resolução nº 2.010, de 28-07-1993; Comunicado s/n, de 01-08-1993).

23-09-1993 – A diretoria do Banco Central do Brasil, usando das atribuições conferidas pela Lei nº 8.697, de 27-08-1993, aprova conjunto de oito temas para servir ao desenvolvimento de projetos de futuras cédulas, dentro da linha temática dedicada a tipos humanos e aspectos regionais brasileiros, estabelecendo a vinculação das figuras de rendeira e baiana às denominações de 10.000 e 50.000 cruzeiros reais, respectivamente. (Voto BCB nº 576/93 – Sessão 1.525).

01-10-1993 – Entra em circulação a cédula de 1.000 cruzeiros reais, com efigie do educador Anisio Teixeira. (Comunicado nº 3.527, de 26-10-1993).

29-10-1993 – É lançada em circulação a cédula de 5.000 cruzeiros reais, que inicia nova linha temática dedicada a tipos humanos e aspectos regionais brasileiros, focalizando a figura do gaúcho. (Comunicado nº 3.563, de 26-10-1993).

22-03-1994 – A Diretoria do Banco Central do Brasil aprova as características da cédula de 50.000 cruzeiros reais, com tema dedicado à “baiana”. Obs: Foi suspenso o processo de preparação da cédula de 10.000 cruzeiros reais, devido à necessidade de liberar espaço nas linhas de produção para a fabricação de cédulas do Padrão Real. (Voto BCB nº 113/94 – Sessão 1.562).


30-03-1994 – Entra em circulação a cédula de 50.000 cruzeiros reais, tendo como tema a figura da “baiana”. (Comunicado nº 3.788, de 23-03-1994).

01-07-1994 – Tem início a vigência do plano Real. As cédulas do padrão Cruzeiro Real deixam de integrar o sistema monetário nacional, permanecendo em circulação como meios de pagamento, com poder liberatório definido pela taxa de conversão de 2.750 cruzeiros reais para 1 real. (Comunicado nº 4.011, de 30-06-1994).

15-09-1994 – Termina o prazo para circulação das cédulas de cruzeiros reais, como meios de pagamento. O prazo para troca por cédulas e moedas do padrão Real no Banco Central do Brasil – ou no Banco do Brasil S.A., nas localidades sem representação do Banco Central – fica estendido até 30-09-1994. (Circular nº 2.471, de 24-08-1994).



Fonte:
- Pesquisas efetuadas em arquivos do Banco Central do Brasil
- Sitio do Governo Federal
- Senado Federal
- Câmara Federal
- Presidência da República
- Cédulas do Museu Virtual - Acervo Diniz Numismática
Textos:
Bruno Diniz

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